O médico na gestão de serviços hospitalares
Com a consolidação da tríade administrador-enfermeiro-médico na gestão dos serviços hospitalares, começa a se delinear uma nova era, reforçando o papel do médico na administração dos hospitais de diversos portes. Não que isso seja uma novidade. Historicamente, as instituições hospitalares são dirigidas por profissionais de saúde. Entretanto, apenas mais recentemente começa-se a falar sobre o médico-gestor, preparado para conduzir a organização como uma empresa de fato e, ao mesmo tempo, levando em conta todas as particularidades deste tipo de negócio (afinal, quem melhor que o médico para conhecer as necessidades e dificuldades para realizar uma boa assistência à saúde?).
Porém, há um desafio a ser superado. A presença deste tipo profissional no mercado – o médico especializado em gestão e com conhecimento dos métodos de administração empresarial – ainda se resume a algumas exceções. Tradicionalmente, salvo iniciativas isoladas, como o curso eletivo de Gestão e Economia em Saúde da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por exemplo, a Academia não prepara o médico para gerenciar, mas única e exclusivamente para o exercício da medicina.
O foco na gestão ainda é uma oportunidade de melhoria a ser trabalhada. Feito isso, a tendência é que o médico assuma não só os cargos de direção do hospital, como também a condução de unidades de negócio como Pronto-Socorro, Centro Cirúrgico, UTI, entre outras, além de ser o responsável pelo gerenciamento de risco e pela qualificação da assistência.
Até pouco tempo atrás, a maioria dos médicos simplesmente “torcia o nariz” ao cogitar a possibilidade de desenvolver o perfil de gestor. Hoje há diversos exemplos de médicos que assumiram este papel e não pretendem voltar atrás.
Muitos ainda resistem. Alguns por não quererem deixar de clinicar, outros porque não querem sair da zona de conforto e ainda os que simplesmente não têm o perfil necessário e nem se interessam por esta mudança de viés em sua profissão.
Mesmo os que aceitam o desafio, muitas vezes o fazem por acaso e não de forma “premeditada”. Contudo, tudo indica que, cada vez mais, estes profissionais despertem para essa possibilidade de atuação, ainda mais num mercado de trabalho restrito e disputado, em que um médico em início de carreira que se dedica exclusivamente à assistência tem de manter diversos empregos para conseguir ganhos razoáveis, reconhecimento e uma boa colocação entre seus pares. Isso sem contar a minimização do risco individual que a profissão lhe imputa – ao ser contratado como gestor hospitalar, o médico passa a ser resguardado pela instituição de maneira mais intensa.
Nem sempre dá certo. O médico que assume o papel de gestor pode ter dificuldade em gerir os conflitos inerentes à prática assistencial ou avaliar negativamente o estabelecimento de um vínculo exclusivo com a instituição– embora isso já seja prática institucionalizada em um dos maiores hospitais do Brasil.
Mas é fato que os hospitais que desenvolvem a gestão profissional querem os médicos em seus principais postos de gestão e a principal motivação é muito simples: alavancar os resultados da organização.
A capacitação de médicos-gestores ainda é deficiente e requer uma conscientização maior das faculdades de medicina e dos conselhos de classe (algo que já vem sendo feito com sucesso no ensino da enfermagem). Porém, sanada esta dificuldade e surgindo novos cursos para formação do médico-gestor, certamente abrir-se-á um novo mercado de trabalho.
Genésio Korbes