Novo modelo de remuneração: como ficam os pequenos e médios hospitais

Genésio Korbes

Está em andamento desde meados do ano passado uma discussão de extrema importância para o setor de saúde. Por iniciativa da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), formou-se um grupo com representantes da Confederação Nacional de Saúde (CNS), Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP), Confederação das Misericórdias do Brasil e Federação Brasileira de Hospitais (FBH), com o objetivo de discutir a implantação de um novo modelo de remuneração para os serviços de saúde.
A principal crítica deste grupo técnico, conduzido pelo consultor Afonso José de Matos, da Planisa, é ao modelo fee for service, ou conta aberta, praticado atualmente na grande maioria dos hospitais brasileiros. Num cenário de concorrência cada vez mais acirrada, consolidação de grupos hospitalares e fortalecimento da verticalização, a imprevisibilidade dos gastos característica deste modelo é uma pedra no sapato das organizações que buscam se fortalecer neste mercado.
A opção em evidência é a consolidação dos pacotes cirúrgicos e da diária global, ambos encarados com simpatia, para não dizer exigência, das operadoras de planos de saúde. Acredito que este novo modelo deve ser visto com bons olhos também pelos hospitais que têm como prerrogativa uma gestão inteligente de seus custos, bem como aumento da produtividade e da qualidade assistencial. Uma ótima oportunidade para atuar fortemente na melhoria dos processos.
Entende-se que os pacotes não podem ser adotados em 100% dos casos. Nos eventos de baixa previsibilidade, por exemplo, a remuneração fee for service ainda tende a predominar. Porém, os dirigentes e gestores dos hospitais podem – e devem – arregaçar as mangas e lançar mão de recursos como a TISS (Troca de Informações em Saúde Suplementar) e TUSS (Terminologia Unificada em Saúde Suplementar), diretrizes da ANS, para consolidar seus protocolos.
Mais do que as terminologias, as organizações precisam quantificar seus protocolos no que diz respeito aos custos de materiais e medicamentos, dos serviços auxiliares de diagnóstico e tratamento,  recursos humanos e honorários médicos. Afinal, só assim será possível estabelecer uma política de reajustes com chances de sucesso junto às operadoras.
Outro fator crítico de sucesso para o modelo de remuneração baseado em pacotes é o envolvimento do médico. Afinal, o especialista tem papel fundamental desde a etapa inicial – definição dos protocolos e das diretrizes assistenciais – até o final do processo, sendo um dos protagonistas da gestão da assistência hospitalar. Daí a importância de alinhar os objetivos do corpo clínico à estratégia da instituição.
Estabelecido este contexto inicial, contudo, uma pergunta se faz necessária: o que acontecerá com os pequenos e médios hospitais, que representam cerca de 80% da rede brasileira e que não têm as necessidades básicas de estrutura, gestão e informática atendidas?
Se a adoção do novo modelo preconizado pela ANS for de fato irreversível, há a necessidade concomitante de instrumentalizar a gestão desses hospitais, o apoio externo de consultorias é imprescindível. O uso de um sistema de gestão integrado de TI precisa ser implantado, pois somente com esta ferramenta será possível que essas organizações adotem a remuneração por procedimentos e a diária global e passem a acompanhar os protocolos e indicadores assistenciais. Serão necessárias linhas de financiamento para a aquisição desses sistemas e o BNDES poderia ser um dos fomentadores.
Acredito que a implantação deste novo modelo nos serviços de pequeno e médio porte deveria ocorrer em etapas: no primeiro ano, melhorias na infra-estrutura gerencial e instalação do sistema de gestão; no segundo, implementação do novo sistema de remuneração; e, no terceiro, os ajustes necessários para que esta estratégia comece a mostrar resultados.

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